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CRÔNICA
por Suzane Carvalho

A TRAGÉDIA NA REGIÃO SERRANA DO RIO DE JANEIRO




        Andar por sobre, ou entre, parte das pedras que desabaram do alto das montanhas na Região Serrana do Estado do Rio de Janeiro, na noite de 11 para 12 de janeiro, em consequência de uma chuva muito forte, me fez entender ainda mais o quanto somos frágeis.
        Um mês após a tragédia que devastou muitos bairros da região, o cenário é impressionante. Não foi apenas uma montanha que ruiu. Foram várias, muitas montanhas, por todos os lados, em várias cidades.



       

        Nesse, que foi considerado um “mega desastre da serra”, a terra caiu do alto das montanhas a uma velocidade de até 180 Km/h, segundo Claudio Amaral, geólogo do Serviço Geológico do Estado do Rio de Janeiro. Ou seja: em 20 segundos, a massa de terra que caía, percorria 1 km. Só que nenhuma das montanhas que ruiu, chega a ter 1.000 metros de altura, a partir do solo, o que quer dizer, que em menos de 20 segundos, estava tudo destruído. Mesmo que alguém soubesse o que estava acontecendo, não teria tempo para escapar. Quem estava em casa em um local atingido, lá ficou para sempre.

        Claudio Amaral diz que a situação poderia ter sido ainda muito pior, se a chuva mais forte tivesse caído em algum bairro com maior densidade demográfica.


        O último número oficial de vítimas divulgado é de 902. Mas muita gente não foi encontrada. E nem será.

        A Defesa Civil não passou ainda por muitos desses lugares, e em muitos bairros e vilarejos, a luz ainda não foi restabelecida e as estradas ainda não foram reabertas, e por isso a ajuda comunitária ainda não chega lá. Para acessar esses lugares, somente com carros especiais do tipo fora-de-estrada.





        E foi por isso que a Land Rover, fabricante de carros off-road, que já vinha colhendo donativos junto aos funcionários, tomou a decisão de disponibilizar para a Cruz Vermelha Brasileira, dois carros do modelo Defender 110 para o transporte e distribuição de donativos às comunidades em áreas de difícil acesso.

        A Land Rover, que já tem uma parceria global com a Federação Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, ajudando às pessoas em situação de vulnerabilidade em todo o planeta, ajudará também nos trabalhos de recuperação das atividades dos agricultores de hortaliças da serra fluminense.

        Flávio Padovan, presidente da Jaguar-Land Rover para a América Latina e Caribe, disse que “a iniciativa privada tem obrigações com a sociedade. Nossa empresa tem em sua missão, participar de ações de suporte a comunidade, com projetos dedicados em cada região onde atua. Por isso, estamos empregando o que temos de melhor: a robustez e a capacidade de trefegar em áreas de difícil acesso, característica dos produtos da Land Rover. Sentimo-nos honrados em participar na ajuda às vítimas da tragédia da região serrana do RJ, na tentativa de amenizar o sofrimento das pessoas que estão isoladas e que ainda sofrem os efeitos do acidente."


        Fui convidada para levar um dos Defenders de São Paulo a Itaipava, e me ofereci para lá ficar na ação de distribuição dos donativos, já que eu achava pouco o que havia feito até então, doando sangue, comida e roupas. O piloto Rafael Suzuki foi convidado para levar o outro carro.


        Quem nos recebeu em Itaipava foi Marcelo Kiffer, gerente da concessionária local da Land Rover, que tem estado atuante na ajuda pessoal às vítimas. Ele falou que seu único intuito é de ajudar ao próximo. “Se é possível fazer algo para ajudar essas pessoas, vamos fazer. Tem muita gente humilde aqui, e ver a alegria deles quando chegamos, é gratificante. O simples ato de dar um biscoito para uma criança e vê-la sorrir, me alimenta, me dá mais força para lutar no dia a dia. E a gente nunca sabe o dia de amanhã. “

        Fizemos uma pequena reunião para definir como seria a ação, e as regiões onde chegar, e começamos a carregar para sair cedo no dia seguinte.


        Fomos guiados por Milton Tesserolli Filho, um apaixonado pela Land Rover e fundador-presidente do Land Rover Clube. Ele já teve concessionárias da marca, é colecionador, e participou de várias expedições no Saara, Amazônia e Andes com seus carros.
        Desde o dia do desastre, Milton tomou a frente na ajuda direta às pessoas que estão isoladas nessas áreas distantes, já que é morador do Vale do Cuiabá, o lugar mais atingido de Itaipava/Petrópolis e também teve sua casa atingida. Ele colocou seus equipamentos para ajudar nos resgates e agora está recolhendo e distribuindo os donativos. Como tinha uma escola de off-road, conhece profundamente a região e está acostumado a fazer trilhas e cursos no local.

        Percorremos mais de 100 quilômetros por sobre e entre as montanhas entre Itaipava e Terezópolis, começando pelo Vale do Cuiabá, maior centro de treinamento de cavalos do Brasil. Ali, existem ainda diversos corpos desaparecidos e o Corpo de Bombeiros acompanha as escavações. Com as avalanches, o Rio Santo Antônio ficou bloqueado, represando as águas. Quando a barreira rompeu, uma onda gigante, com lama e pedras, inundou grande parte da região. As casas que estavam na beira do rio, e não eram poucas, estão ainda sob os escombros.

        Cenário de parte de minha infância e adolescência, em um primeiro momento, fiquei sem ação. Estarrecida e impressionada como a paisagem que conhecia desde criança, mudara de cor. Como a natureza agiu de forma tão devastadora. A imagem é de destruição para todos os lados. Em muitos lugares, o verde sumiu dando lugar ao cinza. Rios foram criados, outros desapareceram. Outros ainda, tiveram seu curso desviado, mudando a geografia do local.



        Vendo as fotos de como ficaram alguns carros, dá para entender porque jamais alguns corpos aparecerão.


        Fomos até Santa Rita e São José do Vale do Rio Preto.
        As montanhas ali, mais pareciam bolos desmontando em final de festa. Sem distinção, foram atingidas fazendas, pousadas, casas de alto nível e as mais simples. Algumas casas sobreviveram no meio da devastação e estão abrigando as pessoas que saíram a tempo das que foram atingidas. É o caso da D. Maria que aparece na foto e mal consegue olhar para o que restou de sua casa. Ela, e outros oito integrantes da família, saíram de casa quando a água começou a invadir e passaram a noite pendurados no morro, sem entender o que estava acontecendo. Apenas quando clareou o dia, viram que haviam escapado de morrer.


        Houve quem dissesse que viu uma “bola de fogo” batendo em uma das montanhas, causando um estrondo e fazendo tudo vir abaixo.

        Muita terra e pedras que ficaram soltas, ainda despencarão quando novas chuvas acontecerem, e essas pessoas precisam sair de lá.


        Subimos até o Alto do Jurity, quase no topo da montanha. Como as estradas desapareceram, para alcançar esses lugares, só mesmo com um carro próprio para trilha pesada.

        Toda a região foi afetada. Foram muitas avalanches por todos os lados, em todas as montanhas. Algumas casas sobreviveram no meio de outras soterradas. Estar ou não em locais atingidos, ou não, foi apenas uma questão de sorte ou não.



        Para mim, que não entendo nada de geologia, a impressão é de que houve algum tipo de terremoto ou acomodação da terra. Mas foi algo que veio de cima.
        Acho que não há como culpar as construções irregulares, pois aconteceu com montanhas sem construções, soterrando as casas que embaixo dela se encontravam, ou não.

        O prefeito da cidade de Areal sabia que uma grande torrente estava por vir, e tomou a precaução de evacuar a cidade. Nenhuma vítima ali. Porque os outros não fizeram a mesma coisa?


        A razão de essas pessoas estarem há mais de 1 mês sem luz nem água, sem ter como comprar comida ou mesmo sair de suas casas, não é apenas estrutural, mas também política. As prefeituras locais não tomam nenhuma iniciativa a não ser “empurrar” as áreas atingidas para a prefeitura vizinha não se responsabilizando pelas áreas que estão em limite de município.

        Muitas pessoas com experiência em montanhismo e disposição para ajudar, foram barradas pelos órgãos oficiais que lá estavam.


        Foi minha primeira experiência desse tipo, e dois dias de trabalho na serra, foi nada.
        Meu sentimento enquanto estava em meio ao que restou das avalanches, não foi de impotência diante a força da natureza, mas de que, apesar de estar ajudando em alguma coisa, isto não era nada. Foi muito pouco perante o tanto mais que eu poderia ter feito logo após o desastre.



        Além de mantimentos, o que essas pessoas precisam, e isso qualquer um pode dar, é de atenção. De conversar, brincar, para se confortarem e voltarem a ter energia para recomeçar.

        Agradeço à Land Rover a oportunidade, e o companheirismo de toda equipe que esteve junto nesses dias.



fotos: Satoru Takaesu e Suzane Carvalho

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Fevereiro de 2011


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